Fonte: Wikimedia Commons

Este que vou compartilhar com vocês agora é um sentimento comum entre pessoas que se mudam para outros países, mas que também acomete viajantes profissionais ou casuais. Quando viajamos, aprendemos muito sobre a sociedade, o estilo de vida, o urbanismo, a cultura e muitos outros aspectos dos novos lugares que nos são apresentados. A reação mais frequente é de surpresa, curiosidade, mas às vezes, mesmo sem querer, associamos algo à nossa cidade natal. Percebemos que alguma coisinha naquele mundo novo nos lembra de casa. Em casos extremos, a sensação de familiaridade é tão grande que nem acreditamos que pegamos tanta estrada para chegar àquele que mais parece o lugar de onde viemos. Isso não quer dizer que vimos algo igual em duas cidades, mas tem a ver com a sensação que cada cidade causa na gente, pela forma como nos relacionamos com elas e com seus moradores. Sem perceber, a gente cria um modo de viver baseado nisso.

Reghin, na Romênia, é uma cidade tão pacata e pequenininha que, quando lá cheguei em uma viagem de estudos que duraria duas semanas, tive certeza de que, em algum ponto da estrada, o ônibus tinha entrado em uma fenda do tempo e espaço que nos levou à Macaparana dos anos 60, que só conheci através das fotos da juventude dos meus pais. Fiquei procurando a casa da minha tia Marleide e juro que cheguei a encontrar a rua, mas não a casa. Talvez ela ainda não tivesse sido construída nos anos 60. Tia Marleide também talvez não conseguisse morar em Reghin. A moda de lá parece ser muito antiquada para o seu gosto sofisticado.

Meus colegas no ônibus ouviram minhas histórias sobre a cidade dos meus avós e as férias que nela passei durante a minha infância, mas em momento algum eu senti verdadeiramente que encontraria, ao virar da esquina, a vizinha fofoqueira ou aquela tia que não cansava de me cobrar que cortasse os cabelos porque cabelo longo deixa a gente com cara de velha. Por mais que tudo ali me lembrasse de um lugar onde todos me conheciam, aquela língua diferente, meio turco, meio italiano, não me deixava esquecer que, na verdade, ninguém ali me conhecia, e esse é o sentimento mais empoderador que existe.

Saber que não vamos esbarrar na rua com nenhum conhecido nos dá a liberdade, que muitas vezes não temos em território familiar, de ser quem queremos ser, sem medo de reprovação. Falamos sobre o que queremos falar enquanto vestimos as combinações que queremos vestir. Falamos alto em público, damos nossas opiniões de verdade, somos autênticos. Afinal, ninguém vai reclamar nem contar à minha mãe que eu tomei café da manhã no almoço e almocei uma caixa de chocolate no jantar.

Quando ninguém sabe quem somos, tudo pode, e acabamos sendo mais felizes. Só sabe o que é viagem de verdade quem viaja, só sabe as dores e as delícias de morar longe quem mora longe. Essas são coisas que não dá para substituir pelo texto do livro, pela foto da revista ou pelo programa da televisão.

Esta é a nossa coluna dominical, chamada Crônicas Viajantes. Todo domingo tem uma nova história das minhas andanças por aí, porque tudo se torna diferente através dos olhos de uma arquiteta e urbanista. Para ler a crônica anterior, clique aqui. O Habitamos agradece sua visita e até o próximo domingo!

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