Fonte:https://medium.com/@mattmdiniz/cine-marab%C3%A1-e-sua-hist%C3%B3ria-at%C3%A9-aqui-163da982bc5f

Em São Paulo, dos anos 40 à 60, o cinema não era apenas um lazer da classe média e alta, e sim um grande símbolo de modernidade. Por essa razão na área central da cidade se construíam cada vez mais grandes cinemas que vivenciaram o auge do glamour. Até hoje na região do centro novo, é possível ver os resquícios do que antes era chamado de Cinelândia Paulista.

Os cinemas da época eram como palácios cinematográficos, um grande exemplo disso é o cine UFA-PALACE, de Rino Levi, que contava com 3.139 lugares divididos entre plateia e balcão, uma infinidade de detalhes arquitetônicos e vários cuidados especiais na iluminação, acústica e revestimentos.

Cine Ufa Palace/ Fonte: salasdecinemadesp2

O cinema Marabá nasceu nessa dessa época, em 1945, com uma sala que comportava 1.438 expectadores, dividindo seu publico em uma plateia geral e em balcões suspensos. Localizado na Av. Ipiranga, muito próxima da Av. São João (Sim como na música), foi criado pela Empresa Paulista Cinematográfica, do empresário Paulo de Sá e foi um dos maiores concorrentes da Empresa Cinematográfica Serrador, responsável por grande parte dos cinemas da época.

De acordo com Inamá Simões, com o tempo houve o declínio desses cinemas, não apenas por conta da popularização dos aparelhos de televisão, mas também por outros fatores como e a crise sofrida pelos estúdios holliwoodianos e os processos de transformação urbana, onde o centro de representação econômica de São Paulo mudou para outras regiões da cidade, ocasionando o abandono da área central .

Por questões econômicas, culturais e administrativas, a partir dos anos 60 muitos cinemas passaram a transmitir a famosa pornochanchada, por garantir uma maior rentabilidade que os filmes tradicionais da época. Alguns desses cinemas seguem com essas exibições até os dias de hoje, outros desapareceram, viraram estacionamentos ou foram transformados em igrejas.

Cinema como experiência e memoria

Cena do filme: “De onde eu te vejoFonte:viajenaviagem

O antigo Marabá diferente de alguns semelhantes, sobreviveu durante 63 anos, Paulo de Sá, não conseguiu aceitar que seu glamoroso cinema passasse a exibir conteúdo adulto. Então, o Marabá seguiu durante muitos anos, com pouco público até que anos mais tarde foi vendido para a franquia de cinemas Playarte. Em Agosto de 2007, o cinema fechou para reformas.

Um filme nacional muito interessante que retrata esse fechamento e as relações de memória que temos com a cidade é o “De onde eu te vejo”de Luiz Villaça, que conta a história de um casal separado e a relação deles com a cidade.

Para eles o Cine Marabá é um dos lugares mais importantes da cidade e no filme ele acaba de fechar, guardando grandes memórias do casal com o cinema de rua e das experiências que tiveram com o espaço em si.  Isso traz a luz uma relação muito importante do cinema e a arquitetura, que é a experiência e a memória afetiva.

Ir ao cinema é um evento, e o espaço que proporciona esse acontecimento é de grande importância na experiência das pessoas. pode ser uma sala fechada com a melhor acústica e iluminação para uma experiência de imersão, mas também pode ser feito em um espaço aberto que se torna um ponto de encontro e de interação com a cidade, um exemplo disso são os cinemas itinerantes. O filme trata da experiência do espectador com o cinema e seu entorno, quando diz que a sensação ao sair do cinema para uma praça de alimentação, é algo totalmente diferente de sair diretamente na rua, onde a mágica do cinema pode continuar.

O cinema dentro dos shoppings se tornaram comuns, as famílias passaram a ver esse espaço como local seguro de lazer e passeio, e querendo ou não, isso é um tipo de experiência. A questão é que o cinema passa de se relacionar diretamente com a cidade, o que antes era um equipamento que movimentava o fluxo de pessoas e um uso mais prolongado do espaço no tempo (podendo trazer ruas mais seguras), passa a pertencer a outro equipamento (privado), fechado para cidade.

Mas, isso nos faz pensar sobre a importância da memória, em como devemos respeito e cuidado a alguns edifícios e a tudo que representaram para nossa sociedade. É necessário entender o que significaram e como podem servir a cidade nos dias de hoje. Os grandes cinemas de época cheios de glamour e com salas enormes não se comunicam com as cidades de hoje, mas ainda é possível pensar em novos usos e maneiras de preservar parte do que foram.

Cinema como representação do passado e futuro

Cine Marabá/ Fonte: tripadvisor

O Cine Marabá reabriu em Maio de 2009 com novas cinco salas, reformado pelo arquiteto Ruy Ohtake e Samuel Kruchin e assim segue funcionando até hoje. É um exemplo de solução arquitetônica para esse tipo de espaço, porém ainda há outras alternativas que também podem ser bastante interessantes.

A grande questão é pensar sobre o que esse prédio pode se tornar, para atender não só os dias de hoje, mas no futuro também, e nisso podemos encontrar a última relação que coloco aqui , que é a representação do passado e do futuro. O cinema costuma tentar prever o mundo que está por vir, com paisagens urbanas cada vez mais realistas, e mostrando o que aquelas cidades podem gerar e como as pessoas vão vivenciar esses lugares, além de permitir conhecer cidades, lugares e construções que já se foram e que nunca veremos ao vivo.

O cinema se inspira na arquitetura, mas o contrário também é reciproco, como em uma citação de Win Wenders: “Creio que os filmes são um produto e uma parte do meio urbano, quase como a música, e os arquitetos que se interessam por urbanismo deveriam estar informados sobre o tipo de música que se escuta, da arte que se faz e dos filmes que se rodam”

Enfim, esse artigo buscou mostrar algumas das relações entre cinema e arquitetura, usando o Marabá como objeto de estudo do assunto, e também falando um pouco sobre a história do cinema Paulista. Espero que esse artigo tenha sido útil, o Habitamos agradece sua visita.

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Neste artigo, utilizamos como referência:

DINIZ, Matt. Cine Marabá e sua história até aqui. Medium, 2016. Disponível em: <https://medium.com/@mattmdiniz/cine-marab%C3%A1-e-sua-hist%C3%B3ria-at%C3%A9-aqui-163da982bc5f> Acesso em: 05 nov. 2020.

SANTOS. Fábio Allon dos. A arquitetura como agente fílmico. Vitruvius Arquitextos, 2004. Disponível em: <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.045/616> Acesso em: 05 nov. 2020.

Folha Online. Aos 63 anos, Cine Marabá fecha as portas no centro de SP. Folha de São Paulo, 2007. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1808200734.htm> Acesso em: 05 nov. 2020.

GOIA, Mario. Restaurado, Cine Marabá reabre com cinco salas. Folha de São Paulo, 2009. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2605200912.htm> Acesso em: 05 nov. 2020.

SIMÕES, Inimá Ferreira. Salas de cinema de São Paulo. Secretaria Municipal
da Cultura de São Paulo. PW Gráficos e Editores Associados, 1990.

Caso precise citar esse artigo em algum trabalho de acadêmico utilize:

MOREIRA, Nycolli. O Cine Marabá as relações entre o cinema e a arquitetura. Habitamos, 2020. Disponível em: <http://www.habitamos.com.br/o-cine-maraba-as-relacoes-entre-o-cinema-e-a-arquitetura/ >. Acesso em: “colocar data aqui”.

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