Fonte: Andrea Piacquadio / pexels.com

Em 2012, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) realizou o primeiro Censo dos Arquitetos e Urbanistas no Brasil, revelando que os homens já não são maioria dentre os profissionais de arquitetura e urbanismo ativos no país, contabilizando 39% de representação na profissão e contrariando sua história, marcada pela predominância masculina. Dados mais recentes, divulgados pelo conselho em 2019, mostram uma queda de mais de 2% nesse número, e não há perspectiva de aumento, uma vez que apenas 33% dos estudantes de arquitetura e urbanismo são do gênero masculino, atualmente.

No entanto, como pode ser visto no gráfico abaixo, os arquitetos continuam a ser mais premiados, homenageados e votados para compor cargos de liderança nas organizações e entidades profissionais nacionais. Ainda segundo o CAU, o protagonismo masculino nessas áreas tem diminuído nos últimos anos, porém de forma discreta. Isso revela que o reconhecimento que nós, seja enquanto sociedade ou colegas, damos aos homens arquitetos não tem relação com a uma grande presença numérica no gênero na profissão, mas então por que será agimos dessa forma? Será que o trabalho dos arquitetos tem mais qualidade que o das arquitetas? Ou será que agimos com base no nosso costume histórico de ver sempre a figura masculina associada às grandes obras arquitetônicas e urbanísticas?

Percentuais de representatividade feminina (2012-2019). Fonte: CAU/BR

Há que se considerar que estamos em 2020 e o prêmio Pritzker, frequentemente tratado como “o Nobel da arquitetura”, foi concedido a duas mulheres este ano. No Brasil, o atual “arquiteto e urbanista do ano” (nome do prêmio concedido anualmente pela Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas) é, na verdade, uma arquiteta. Então, talvez já esteja na hora de nós, brasileiros, invertermos a atual lógica de referências arquitetônicas e aceitarmos que, dentre os arquitetos e urbanistas brasileiros, a predominância não é mais masculina. E precisamos começar a agir de acordo com essa realidade já não tão nova assim.

Se você está achando o enfoque deste artigo estranho, não se preocupe, isso é intencional. Hoje é o Dia Internacional dos Homens, e o Habitamos vem propor um exercício simples aos nossos leitores: ler o texto abaixo, escrito sobre arquitetos da mesma forma que se tem escrito sobre as arquitetas, e nos dizer o que acharam.

Três arquitetos contemporâneos que vale a pena conhecer

Em comemoração ao Dia Internacional dos Homens, o Habitamos apresenta três arquitetos contemporâneos de sucesso internacional, para lembrar que, apesar de serem mais comumente associados à execução de obras, os homens podem sim projetar arquitetura de qualidade.

Apesar de, no Brasil, mulheres atualmente estarem em maioria dentre os profissionais de arquitetura e urbanismo (Censo dos Arquitetos e Urbanistas do Brasil, CAU/BR), em outros países, como no Reino Unido (Royal Institute of British Architects Journal) e nos Estados Unidos (2015 American Community Survey), os homens ainda predominam.

Alejandro Aravena

Alejandro Aravena. Fonte: pritzkerprize.com

O arquiteto chileno Alejandro Aravena, vencedor do prêmio Pritzker de 2016 e do RIBA (Royal Institute of British Architects) de 2018, é conhecido por seu trabalho com habitação de interesse social. Aravena aposta no modelo de moradia incremental para diminuir a padronização que a habitação social impõe à população de baixa renda. Através desse conceito, ele projetou moradias com instalações básicas e espaço disponível para expansões que os moradores poderão fazer de acordo com suas necessidades.

Shigeru Ban

Shigeru Ban. Fonte: pritzkerprize.com

Shigeru Ban, arquiteto japonês, começou a trabalhar com estruturas de tubo de papelão em 1994. Desde então, criou abrigos e construções temporárias para população em vulnerabilidade social. A técnica é importante para situações emergenciais, devido à rapidez de execução. O arquiteto é o detentor do prêmio Pritzker de 2014.

David Adjaye

David Adjaye. Fonte: adjaye.com

Nascido na Tanzânia, em uma família que viajou o mundo para acompanhar o patriarca em sua profissão de diplomata, David Adjaye tinha também um irmão com mobilidade reduzida. Essa experiência de vida influenciou sua formação como arquiteto, hoje conhecido por projetos voltados ao usuário e à comunidade. David Adjaye fez história em 2020, tornando-se o primeiro arquiteto negro premiado com Royal Gold Medal do RIBA.

A intenção deste artigo é de mostrar que as arquitetas e urbanistas ainda são tratadas como exceção dentro de sua própria profissão, mesmo estando em maioria numérica ou quando provam que seu trabalho é de qualidade. Escolhemos o método de inversão de papeis de gênero em um tipo de texto comumente encontrado em portais de arquitetura e urbanismo ao longo dos últimos anos, pois é uma forma simples de ilustrar essa inquietação. Se você se sentiu estranho ao ler este texto, deixa sua opinião nos comentários e podemos debater juntos. O Habitamos agradece sua visita.

Referências

CENSO dos Arquitetos e Urbanistas do Brasil. CAU/BR, 2012. Disponível em: https://www.caubr.gov.br/wp-content/uploads/2018/03/Censo_CAUBR_06_2015_WEB.pdf. Acesso em: 19 nov. 2020.

LATERZA, Ana; MORENO, Júlio. Inédito: visão completa sobre a presença da mulher na Arquitetura e Urbanismo. Disponível em: https://www.caubr.gov.br/inedito-visao-completa-sobre-a-presenca-da-mulher-na-arquitetura-e-urbanismo/. Acesso em: 19 nov. 2020.

MOREIRA, Nycolli. Maria Inês Sugai é a arquiteta do ano de 2020. 2020. Disponível em: http://www.habitamos.com.br/maria-ines-sugai-e-a-arquiteta-do-ano-de-2020/. Acesso em: 19 nov. 2020.

GREEN, Brian. Grounds for optimism in improving profession’s diversity. 2019. Disponível em: https://www.ribaj.com/intelligence/market-analysis-statistics-gender-ethnicity-socio-economic-background-architects. Acesso em: 19 nov. 2020.

YAU, Nathan. Most Female and Male Occupations Since 1950. Disponível em: https://flowingdata.com/2017/09/11/most-female-and-male-occupations-since-1950/?utm_medium=website&utm_source=archdaily.com. Acesso em: 19 nov. 2020.

LOBO, Diego. David Adjaye é o primeiro arquiteto negro premiado com Royal Gold Medal do RIBA. 2020. Disponível em: http://www.habitamos.com.br/david-adjaye-e-o-primeiro-arquiteto-negro-premiado-com-royal-gold-medal-do-riba/. Acesso em: 19 nov. 2020.

Caso precise citar esse artigo em algum trabalho de acadêmico utilize:

ALBUQUERQUE, Suzana Andrade de Oliveira. Homens na arquitetura brasileira: uma reflexão. Habitamos Arquitetura, 2020. Disponível em: <http://www.habitamos.com.br/homens-na-arquitetura-brasileira-uma-reflexao/>. Acesso em: “colocar data aqui”.

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