Torre do clã dos fabricantes de corda, Sighisoara. Fonte: travelnotesandbeyond.com

A Transilvânia é um lugar de desilusões. A gente vai lá atrás do conde Drácula e volta cheio de conhecimento que de forma alguma aponta para as coisas que se ouve nas histórias de vampiro por aí. Tudo começa com o tal castelo de Bran, que guarda aspectos estéticos dramáticos que o levaram a ser associado à literatura do Drácula de Bram Stoker, mas onde o real Empalador nunca morou de fato. Eu, que tinha apenas um dia para passear pela região e consultei uma pessoa nativa sobre o assunto, não visitei o castelo. Em vez disso, essa pessoa me indicou uma cidadezinha chamada Sighisoara, que aparentemente era onde as coisas tinham acontecido de verdade.

Logo na entrada da cidade, dá para entender a necessidade de um castelo turístico longe dali: a casa onde nasceu Vlad Tepes, personagem histórico real que inspirou o vampiro da ficção, é um dos primeiros prédios que se avista, e é uma casa comum. De três andares, mas perfeitamente inserida no entorno da cidadezinha cujo centro histórico carrega o status de patrimônio mundial desde 1999. A única coisa estranha é o espetáculo que a gestão da casa faz acerca do quarto onde se diz que Vlad nasceu. Eu não entrei, apenas ri quando meus amigos saíram de lá dizendo que o quarto vermelho parecia um cenário de filme, com direito a caixão e ator vestido de vampiro para assustar os visitantes. Tem quem goste, mas a gente que é arquiteto fica de cabelo em pé.

Nos museus, a história dá conta de que Vlad Tepes não tinha nada de vampiro, mas aterrorizou seus inimigos enquanto governou a Transilvânia em tempos de guerra. Ele é descrito como dono de uma força descomunal e de uma crueldade não menos digna de nota, que se podiam observar a partir do hábito de pendurar seus inimigos em estacas. Vlad Tepes, o Empalador. Filho de Vlad Dracul, de onde veio a ideia para o nome do personagem fictício. Isso se aprende no museu das armas que, junto com os museus da tortura e da história da cidade, formam o conjunto dos museus de Sighisoara, que fica próximo à casa do Empalador.

No museu da história da cidade, aprendemos sobre sua formação e a construção de seus muros e torres – que coube aos clãs tradicionais, que se diferenciavam por seus ofícios – e partimos para conhecer as torres que ainda estavam de pé, uma por uma. Foi um passeio agradável, cheio de cenários lindos. Sighisoara parece montada a partir de pedaços de vários filmes e contos de fada, sem costuras, tudo faz sentido junto e, sem querer, a gente percebe que está se transportando através de vários séculos em uma única tarde, tempo suficiente para conhecer toda a cidade a pé.

Já no final do passeio, depois de conhecer todas as torres e o cemitério, alguns dos meus amigos que foram comigo resolveram entrar na igreja da colina, onde acontecia uma missa. Eu fiquei descansando em um banco de madeira do lado de fora enquanto observava a torre do clã dos fabricantes de corda e, quando um amigo veio se sentar junto a mim, afastei-me um pouco para o lado para dar espaço. Naquele momento, senti uma dor aguda na parte de trás das coxas e não demorei muito para perceber que, além da aparência, o material do banco também era bastante velho: minha perna estava cheia de farpas e eu não conseguia me levantar direito.

Quando, com muito esforço, consegui ficar mais ou menos em pé, mas sem esticar as pernas, tentei puxar aqueles pedacinhos de madeira para fora através da calça fina que estava vestindo, mas os que causavam mais dor pareciam não sair de forma alguma, de modo que achei melhor pedir ajuda à senhora que guardava a porta da igreja e não falava inglês muito bem. Após algumas tentativas de comunicação, ela me pediu que a seguisse, o que eu fiz mancando e completamente descrente, mas ao fim do curto caminho tive a felicidade de encontrar uma porta, que a senhora abriu com sua chave para revelar um banheiro espaçoso o suficiente para que eu me apoiasse em um vaso sanitário, meio de joelhos e meio em pé, enquanto um amigo tentava tirar aqueles espinhos de madeira das minhas pernas. Acho que nunca senti tanta dor. Algumas farpas pareciam ter se ramificado dentro de mim e simplesmente se recusavam a sair. A senhora chegou a abrir a porta preocupada diante dos meus gritos que, pensando agora, acredito que devem ter atrapalhado a missa. Ao fim de um tempo que nunca vou saber precisar, entretanto, acreditávamos que havíamos conseguido nos livrar de todas.

Partimos de volta para o hotel e durante a viagem, de pouco mais de uma hora, voltei a sentir dores. Chegando ao meu quarto, descobrimos que ainda restava uma farpa, que tinha entrado completamente e se escondido na minha pele como um pelo encravado. Era como se ela tivesse feito uma baliza abaixo de algumas camadas de pele. Ali, muito mais bem preparados do que estávamos no banheiro da igreja, eu e meu amigo realizamos uma demorada cirurgia munidos de uma pinça, um alicate de unha e uma agulha do kit de costura do hotel. Obtivemos sucesso, deixando em minha pele um buraco do tamanho da ponta de um polegar, mas até hoje, quando sinto alguma dor na parte de trás das coxas, fico me perguntando o que eu fiz de errado em seu território para que, de dentro do túmulo, Vlad Tepes conduzisse um empalamento tão inusitado. O vampiro pode ser uma lenda mas essa história é real, aconselho o leitor a ter cuidado quando for visitar a terra do Drácula.

Esta é a nossa coluna dominical, chamada Crônicas Viajantes. Todo domingo tem uma nova história das minhas andanças por aí, porque tudo se torna diferente através dos olhos de uma arquiteta e urbanista. Para ler a crônica anterior, clique aqui. O Habitamos agradece sua visita e até o próximo domingo!

Assine a Newsletter do Habitamos

No spam guarantee.

Deixe seu comentário e contribua com o crescimento do Habitamos