Meus pés na Basílica da Sagrada Família

Esta é a história de quando realizei o maior sonho da minha vida mas as pessoas acharam meio estranho. Não me lembro bem sobre qual casa do arquiteto catalão Antoni Gaudí foi o meu primeiro trabalho do curso de arquitetura e urbanismo. Lembro-me apenas de ter escolhido estudar a Batlló e a Vicens, ainda no primeiro período. A obra de Gaudí nunca parou de me fascinar e ele acabou se tornando meu arquiteto favorito ao longo do curso. Naturalmente, comecei a nutrir esperanças de um dia conhecer Barcelona e ver de perto todos aqueles prédios maravilhosos que só conhecia pela internet.

A cada nova obra que eu estudava, a vontade crescia e, de tão forte, aquele desejo se tornou um grande sonho, a ponto de eu não querer nenhuma outra coisa tão intensamente. Então, no terceiro ano do curso, resolvi entrar em um avião rumo àquela que seria a maior realização da minha vida até então.

Eu costumo dizer que cheguei a Barcelona chorando e de lá saí arrastada. A cada parada, eu me via dentro de um dos meus livros da faculdade, completamente realizada. Na casa em que Gaudí morou, dentro do Park Güell, fui invadida por tamanha inspiração que era como se no ar daquele lugar pairassem partículas do talento de seu antigo morador. A casa Calvet vi só por fora, ela havia sido transformada em um restaurante cujo menu não cabia no meu bolso de estudante. Na casa Batlló, eu quis bater em uma mulher que não sabia bem onde estava e viu na lareira em formato de cogumelo um órgão genital. Clamou aos seus amigos, com muito orgulho de sua descoberta, que o arquiteto dali era ruim e também um pervertido, diminuindo uma vida que meu grande ídolo dedicou ao estudo das formas e estruturas da natureza. Mas nada daquilo me preparou para a basílica da Sagrada Família.

Eu, que não sou religiosa, não consegui conter as lágrimas em momento algum da visita. Sou grata por ter tirado fotos, pois através das lentes sequinhas da câmera as imagens ficaram mais nítidas. Era tudo muito lindo, muito monumental, e muito sensível. Quando a luz, filtrada pelos vitrais coloridos e seccionados, iluminava as colunas que se parecem com troncos de árvore, eu me sentia andando em um bosque.

Eu tinha certeza de que o túmulo de Gaudí estava na Sagrada Família, mas um amigo que morava em Barcelona havia me dito, assim que cheguei à cidade, que ele na verdade havia sido enterrado na cripta da colônia Güell, que eu não teria tempo de visitar naquela viagem. Assim, meu corpo tremeu inteiro quando, durante a visita à basílica, recebi a informação de que eu estava certa desde o começo, e eu teria a oportunidade de visitar o túmulo do meu heroi.

Entrei na cripta da Sagrada Família tremendo e, exatamente como em um filme de drama qualquer, ao alcançar o túmulo minhas pernas me traíram, caí de joelhos e comecei um choro soluçante que não sei quanto tempo durou. Só sei que, quando me levantei, algumas pessoas ao redor olhavam para mim preocupadas, e uma senhora simpática veio ao meu encontro, colocou a mão no meu ombro e me perguntou se eu era da família. Hoje eu rio muito a lembrar disso, mas na hora eu estava tão emocionada que demorei um pouco a entender que ela me perguntava se eu era parente do defunto.

Acabei virando amiga da senhorinha, perguntei se ela iria à inauguração quando a basílica finalmente fosse concluída, ao que ela respondeu que não acreditava que estaria viva até lá. Conversamos tanto que no final das contas a convenci de viver o suficiente para que nos encontremos novamente na cerimônia. O acordo está feito, agora só falta o pessoal agilizar essa obra aí.

Esta é a nossa nova coluna semanal, chamada Crônicas Viajantes. Todo domingo vai ter uma nova história das minhas andanças por aí, porque tudo se torna diferente através dos olhos de uma arquiteta e urbanista. O Habitamos agradece sua visita e até o próximo domingo!

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