Fonte: Suzana Universo / Acervo Habitamos

Eu sempre fui fascinada por tipos diferentes de piso, principalmente os antigos. Sempre gostei da sensação de visitar uma casa em ruínas e ver, em meio ao acinzentado que ao longo do tempo toma conta de tudo, pedaços de pisos coloridos que resistiram aos anos com bravura.

Acredito que esse fascínio nasceu na casa dos meus avós, lá no interior de Pernambuco. Eu, meus pais e minhas irmãs sempre moramos longe, mas viajávamos para visitar a família ao menos uma vez por ano, e eu amava aquela cidadezinha. Lá fazia calor de dia e um friozinho à noite, mas o chão da casa de vovó sempre estava geladinho, e um dos maiores prazeres dessas viagens era o de andar descalça por ali.

O piso era de cimento queimado vermelho, cor favorita da minha avó, e quando minha irmã começou a estudar arquitetura ela me disse que aquele piso devia ser mágico, uma vez que não tinha nenhuma junta de dilatação e, mesmo assim, nem uma vez durante os mais de cinquenta anos que a casa tinha, qualquer tipo de rachadura apareceu para reclamar. Na minha opinião de adolescente que jurava que jamais se submeteria aos sofrimentos que via a irmã passar na faculdade de arquitetura e urbanismo, era só o chão de sala mais lindo e mais confortável do mundo.

Recentemente, tomei a estrada cheia de curvas que levava ao berço de meus pais novamente, dessa vez para me despedir de meu querido primo Marne, que a vida levou cedo demais. Chegando à casa de seus pais, que também guardava dois dos pisos mais bonitos que eu já havia visto, descobri uma reforma em andamento. Toda orgulhosa, minha tia disse que trocariam todo o revestimento da sala por porcelanato, desses modelos claros e brilhantes que a gente vê em todo lugar por aí.

Quis dizer que não o fizessem, explicar sobre o valor que aqueles desenhos únicos tinham para a memória da casa e das pessoas que, como eu, construíram ali momentos que se tornavam quase reais novamente apenas com um baixar de olhos. Quis pedir uma lajota de cada cômodo para guardar de recordação, loucuras da estudante de arquitetura que era e da arquiteta que sou. Mas a dor era muito grande. A dor não me deixava falar nada que roubasse o restinho de energia que eu empregava nos esforços de segurar o choro e os gritos que se formavam dentro de mim. Por Marne, mas também pelas memórias da nossa infância.

Quanto da história de nossas vidas perdemos em nome da modernidade?

Fonte: Suzana Universo / Acervo Habitamos

Esta é a nossa coluna dominical, chamada Crônicas Viajantes. Todo domingo tem uma nova história das minhas andanças por aí, porque tudo se torna diferente através dos olhos de uma arquiteta e urbanista. Para ler a crônica anterior, clique aqui. O Habitamos agradece sua visita e até o próximo domingo!

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